Como se forma um bom aluno (Parte 2)
Postado por Adriana Ferri em Empreendedorismo, Estratégia, Resultados | maio 14, 2010 | 2 comentários
Esta é a continuação da reportagem publicada na semana passada. Para quem não leu basta clicar aqui para acompanhar a leitura. Vale a pena!
4. Resistência a Frustrações - Outra forma de a disciplina se manifestar é na resiliência, termo utilizado pelos psicólogos como a capacidade que uma pessoa tem de resistir a dificuldades. Leandro, de 16 anos, acorda às 4h30, pega o trem em uma das regiões mais pobres do Rio de Janeiro, rumo ao Cefet, uma das melhores escolas técnicas do país. Sua primeira aula é às 7 horas, chega em casa às 20h30 e estuda até as 22 horas. A maratona massacrante se justifica. Leandro disputou uma vaga com 50 candidatos. Precisou recuperar várias disciplinas para não perder a vaga. Hoje suas notas são acima da média. Os pais, sem instrução, não conseguiram ajudá-lo com os estudos. Mas não poderiam dar lição melhor que o sacrifício que fazem para lhe dar a oportunidade de um bom estudo. Será possível incutir determinação em alguém? Em termos. A resiliência é, provavelmente, uma característica da personalidade. Mas os pais podem influenciar. Em geral, fazem isso para o lado errado. “Vemos muitos pais lenientes, enchendo seus filhos de facilidades”, afirma a diretora. O resultado são crianças mimadas, com pouca resistência a frustrações. E uma tendência a desistir ante as dificuldades. Os pais precisam aprender a estimular seus filhos e, especialmente, a não boicotá-los, ensinando-os a serem autônomos e independentes.
5. O Gosto da Competição - Os trigêmeos Joeverton, Joemerson e Joebert, de 12 anos, foram medalhistas (1 ouro e 2 bronze) na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas em 2009. São o orgulho do pai, professor que vive na periferia de João Pessoa, e faz questão de dar aos trigêmeos três horas extras de aula. A vontade de atingir metas mais altas é um poderoso incentivo para os estudos. “Os melhores alunos não têm medo do desafio”, diz a diretora. Os meninos não se incomodam em suar a camisa. “Sempre foi assim aqui em casa”, dizem. O reforço ajuda a compensar as deficiências da escola pública e a postura do pai faz com que os filhos não enxerguem a escola como fardo, mas como solução. Depois que ganharam um computador num concurso de redação têm como passatempo navegar em redes de relacionamento, bate-papo e sites de jogos, como qualquer pré-adolescente. A diferença é que eles só fazem isso depois dos estudos.6. Pensamento Solto – Um caminho alternativo é a aposta na criatividade. Em vez de perseguir notas, liberar a imaginação. Quando uma pessoa (criança, jovem ou adulto) se concentra em demasia no grau que receberá por um trabalho, deixa de apreciar o valor intrínseco dele. Por isso é tão revitalizante observar crianças como Larissa, de 9 anos, descobrindo o mundo, formulando conceitos, brincando. “A Larissa sempre foi criativa”, afirma sua professora. “Se eu pedia para ela recortar uma árvore, ela me vinha com um varal cheio de roupas. Se eu ensinava a fazer uma peteca de sucata, em cinco minutos a peteca virava outro brinquedo.” Sua mãe estudou até a 4a série e é cozinheira há 13 anos. No ano passado, entrou pela primeira vez em um museu, quando a escola de Larissa convidou os pais a acompanhar os filhos numa visita ao Masp. “Nunca imaginei que existisse um lugar como aquele e que minha filha fosse capaz de fazer o que ela fez ali”, diz a mãe. A sensibilidade de Larissa para as artes faz dela uma criança observadora – o que a favorece na hora de resolver um problema de matemática ou associar fatos históricos. “A criatividade das artes exige construção de conhecimento – e não a simples repetição deles.” Uma criança com pendor para as artes pode ter um caminho de sucesso até maior que o de um aluno “certinho”, em áreas menos convencionais. E Larissa diz que não quer ser artista quando crescer quer ser veterinária.
7. A Inspiração de Alguém – Todo mundo tem alguém que admira: a mãe, um professor, uma personagem histórica. Essa figura nos faz almejar ser melhor. Felipe, de 10 anos, tem um herói: seu avô materno. Ele é engenheiro e serve de inspiração para Felipe desde que, numa visita à construção de uma pousada da família, mostrou-lhe que a matemática serve para construir coisas. “Quero construir robôs para ajudar a salvar a humanidade do desmatamento”, diz o menino. Para atingir seu objetivo, Felipe estuda duas horas todos os dias e tem como meta a nota mínima 8. O irmão mais velho também ajuda. “Ele me estimula a aplicar os cálculos em tudo o que faço”, diz Felipe. “Nunca imaginei que para construir computadores a gente usava matemática.” Ter o avô como herói é a motivação de Felipe. São muitos os casos em que ter um referencial, um exemplo a ser seguido, é determinante para a motivação do aprendizado. Estimular isso é válido, mas com o cuidado de respeitar a individualidade da criança, porque pode acontecer o contrário: a criança se sentir intimidada pela figura de sucesso e se frustrar ao não conseguir ser como ela.
8. Planos de Mudar o Mundo – Para que serve a escola? Em parte, ela é a instituição conformista por natureza. É lá que aprendemos os meios e modos do mundo, as tradições de nossa cultura, o que devemos fazer para ter sucesso, de acordo com as expectativas da sociedade. Mas ela é, também, o lugar do exercício das possibilidades. É nela que aprendemos a pensar por conta própria, questionar, experimentar, criar. Um traço comum entre maus alunos é que seus interesses estão fora da escola. Mas esse é também um traço comum entre os bons alunos. A única diferença é que os maus alunos perseguem seus interesses em detrimento do estudo. Os bons mesclam suas atividades ao estudo. Com isso, ganham capacidade crítica, vivência, experiência. No ano passado, Marcelo, de 16 anos, dedicou boa parte de seu tempo livre a um projeto especial: recuperar a imagem do grêmio estudantil do colégio onde cursa o 3o ano do ensino médio. Ao assumir, Marcelo encontrou a sede pichada, sofás depredados, computador quebrado. Para reformar a sede, arrecadou dinheiro com os alunos e pais de alunos e organizou uma campanha para mobilizar o colégio a participar de uma espécie de gincana. No final do ano, já com a sede reformada e o prestígio do grêmio recuperado, Marcelo conseguiu autorização da diretoria para fazer um festival de música. Cada convidado levou 1 quilo de alimento, doado para entidades carentes. Carregou uma Kombi. Mesmo tão ocupado com articulações estudantis e organização de eventos, Marcelo está no topo das notas de sua turma e vai tentar o vestibular para Direito. Nem todo bom aluno questiona tanto quanto Marcelo, mas essa sua capacidade o coloca entre os melhores. E Marcelo segue os passos de seus pais: ambos participaram de grêmios estudantis no colégio e na faculdade. “Tentamos passar a ideia de que se engajar em atividades fora da sala de aula daria a ele a base que vai definir seu futuro profissional e pessoal”, diz a mãe. “Eles me ensinaram a priorizar o diálogo, a discutir questões que acho importantes”, diz Marcelo. É para isso que serve a educação. Para atuar no mundo.
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Comentários
2 Responses to “Como se forma um bom aluno (Parte 2)”
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maio 27th, 2010 @ 10:20
Sou Pedagoga e Psicopedagoga e o que mais observo atualmente é a dificuldade dos pais em lidar com as frustrações de seus filhos. Cedem demais, presenteiam seus filhos com coisas materiais, mas não dão tempo nem atenção!
Esta leitura “Como se forma um bom aluno”, mostra “alunos sucesso” que tem os pais na medida certa:
Sabem cobrar, oferecendo sua companhia e parceria. É assim que se constrói bons seres humanos…com demonstrações de amor, de verdade sobre a vida, desmistificando a proteção exagerada e o nível sócioeconômico e ensinando conceitos reais sobre o mundo que nos cerca! “Não basta sermos pais…”
Sandra Silva
outubro 18th, 2010 @ 13:04
Sou Pedagoga e acredito que a escola enfrenta tantos problemas com alunos, devido a educação que recebem em casa. Como diz o texto, a maioria dos pais são lenientes, ou seja, enchendo seus filhos de facilidades e mimos, ao invés de prepará-los para a vida, eles querem colocar tudo nas mãos dos filhos. Por isso nós, educadores, enfrentamos tantos problemas nas salas de aulas.
Maria Inês Ramos