Você é Hands On?
Postado por Adriana Ferri em Liderança, Motivação, Pró-atividade | maio 28, 2010 | 1 Comentário
Ótimo artigo de Max Gehringer!
Vi um anúncio de emprego. A vaga era de gestor de atendimento interno, nome que agora se dá à seção de serviços gerais. E a empresa exigia que os interessados possuÃssem – sem contar a formação superior – liderança, criatividade, energia, ambição, conhecimentos de informática, fluência em inglês e não bastasse tudo isso, ainda fossem hands on. Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuÃa essa variada gama de habilidades, o salário era um assombro: 800 reais. Ou seja, um pitico.
Não que esse fosse algum exemplo fora da realidade. Pelo contrário, é quase o paradigma dos anúncios de emprego. A abundância de candidatos permite que as empresas levantem cada vez mais a altura da barra que o postulante terá de saltar para ser admitido.
E muitos, de fato, saltam. E se empolgam. E aà vêm as agruras da super-qualificação, que é uma espécie do lado avesso do efeito pitico…
Vamos supor que, após uma durÃssima competição com outros candidatos tão bem preparados quanto ela, Fabiana conseguisse ser admitida como gestora de atendimento interno. E seu primeiro contato fosse com o seu Borges, Gerente da Contabilidade.
* Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.
* In a hurry!
* Saúde.
* Não, isso quer dizer “bem rapidinho”. É que eu tenho fluência em inglês. Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em inglês se aqui só se fala português?* E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?
* O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque eu tenho
profundos conhecimentos de informática.
* Não, não. Cópias normais mesmo.
* Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha criatividade. Eu já comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 30% das cópias que tiramos.
* Fabiana, desse jeito não vai dar!
* E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar.
* Como assim?
* É que eu sou lÃder, e não tenho ninguém para liderar. E considero isso um desperdÃcio do meu potencial energético.
* Olha, neste momento, eu só preciso das três có…
* Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro…
* Futuro? Que futuro?
* É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui e ainda não aconteceu nada.
* Fabiana, eu estou aqui há 18 anos e também não me aconteceu nada!
* Sei. Mas o senhor é hands on?
* Hã?
* Hands on.. Mão na massa.
* Claro que sou!
* Então o senhor mesmo tira as cópias. E agora com licença que eu vou sair por aà explorando minhas potencialidades. Foi o que me prometeram quando eu fui contratada.
Então, o mercado de trabalho está se dividindo em duas facções:
1 – Uma, cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm as qualificações requeridas.
2 – E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos porque possuem todas as competências exigidas nos anúncios, mas não poderão usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava delas.
Alguém ponderará – com justa razão – que a empresa está de olho no longo prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ser preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores. Em um a empresa em que trabalhei, nós caÃmos nessa armadilha. Admitimos um montão de gente superqualificada. E as conversas ficaram de tão alto nÃvel que um visitante desavisado confundiria nossa salinha do café com a Fundação Alfred Nobel.
Pessoas superqualificadas não resolvem simples problemas! Um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de nossas Fábricas e no meio da estrada, a van da empresa pifou. Como isso foi antes do advento do milagre do celular, o jeito era confiar no especialista, o Cleto, motorista da van.
E aà todos descobriram que o Cleto falava inglês, tinha informática e energia e criatividade e estava fazendo pós-graduação. Só que não sabia nem abrir o capô. Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava tentando destrinchar o manual do proprietário, passou um sujeito de bicicleta. Para horror de todos ele falava “nóis vai” e coisas do gênero. Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar. Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida.
Aquele ciclista anônimo era o protótipo do funcionário para quem as empresas modernas torcem o nariz – O que é capaz de resolver, mas não de impressionar.
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Comentários
One Response to “Você é Hands On?”
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junho 1st, 2010 @ 16:39
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