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Atitude Empreendedora
ACHADO NÃO É ROUBADO? MENTIRA!
"Quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito."
Jean Paul de Goudi
Querida
empreendedora, Querido empreendedor,
“Achado não é roubado”! Uma frase que se incorporou à cultura de muitos brasileiros.
Uma frase infeliz, com cara de “jeitinho brasileiro”, e que se enquadra no mesmo saco cultural do “rouba, mas faz”.
Algo injustificável e espantoso, especialmente quando dito por um pai tentando encobrir uma atitude delinqüente de seu filho de 10 anos, estudante de uma escola onde se paga uma mensalidade de mais mil e duzentos reais, que ao praticar a sua molecagem calçava um tênis Nike novinho e que ganhou um vídeo game de quase dois mil reais como presente de Natal.
Não apenas presenciei o episódio, como fui vítima do ocorrido...
Na garagem do meu prédio temos um espaço onde as crianças, incluindo meu filho, guardam suas bicicletas, sem cadeado mesmo, afinal o acesso ao local é exclusivo aos condôminos.
Dias atrás, quando saíamos para um passeio ao parque, demos falta da bicicleta dele. Por sinal, um modelo simples, sem nada de especial.
Intrigado com o fato e tentando me lembrar o que eu tinha feito com a bicicleta, afinal nem chegou a me passar pela cabeça que ela pudesse ter sido roubada naquele local, pedi uma ajuda ao zelador.
Temos no prédio um sistema inteligente de câmeras e sem muita dificuldade chegamos ao momento exato em que ela havia desaparecido do local.
Para nossa surpresa, uma das crianças do prédio, um filho de empresários bem sucedidos, havia pego a bicicleta há cerca de 15 dias.
Coincidentemente no momento em que fizemos a descoberta, havia um grupo de crianças pedalando na pista do prédio.
Confesso que quase não reconheci a bicicleta do meu filho: os adesivos tinham sido trocados, foi colocada uma pedaleira de manobras e as rodinhas arrancadas.
Ele pegou a bicicleta e a “maquiou” para ninguém perceber.
Molecagem de criança. Foi isso que pensei...
Eu estava num dilema: como falar com os pais? Eu me colocava no lugar deles e ficava imaginando como seria difícil para eles essa dura conversa que teriam com o garoto. Fora a vergonha diante do vizinho.
Portanto, para mim uma coisa era certa: eu falaria com muita delicadeza e, antes de afirmar, faria apenas uma suposição do fato para amenizar o choque.
“A bicicleta de meu filho sumiu e olhando pela câmera de segurança parece que o seu filho a pegou. A senhora não viu se ele apareceu com uma bicicleta nova?”
“Ah, sim, mas ele disse que ganhou de um amigo”, disse a mãe.
Tomei um choque. Não entendo como um garoto de dez anos aparece em casa com uma bicicleta nova, dizendo que ganhou de um amigo, e a mãe simplesmente ignora o fato.
Naquele instante percebi que a coisa seria mais complicada.
Pouco depois chegou o pai e trouxe uma nova versão: “Ele me falou que a bicicleta era de um morador que já se mudou há um ano. Então pegou para ele”. Ou seja, ele pegou porque o dono se mudou.
Minha vontade era de socar aquele pai e meio na marra mostrar que, se ele não colocar limites agora, esse menino cheio de oportunidades tem grandes chances de enveredar para o caminho da criminalidade.
Mas, eu não tinha esse direito.
Só pude, mesmo sem dizer mais nada, externar minha decepção.
Espero, de verdade, que a minha cara de desaprovação tenha doído mais do que um soco.
E que essa dor de um soco na alma tenha de alguma forma ajudado esses pais a acordarem para o que estava acontecendo.
Ali eu vi um pai e uma mãe que não têm tempo para os filhos (são três), que se sentem muito culpados por isso e que estão tão cegos por essa culpa que não conseguem agir com a firmeza que precisam.
Agir com dignidade, sem medo de educar os filhos para a honestidade, eis aí um bom desafio.
Um carinhoso
abraço.
Flávio Lettieri
flavio@sommaonline.com.br
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