Atitude Empreendedora

BULLYING – COMO CORTAR O MAL

" É preciso força para suportar o abuso, mas é preciso coragem para fazê-lo parar."


Querida empreendedora, Querido empreendedor,

Dias atrás, em um desses encontros de amigos do passado, revi o Rolha de Poço. Isso mesmo: “Rolha de Poço”.
Convivemos na escola quando éramos estudantes do ensino médio, naquela época, ainda chamado de colegial.
Confesso que tive dificuldades para me lembrar que seu “nome real” era Carlos, afinal seu nome só era assim pronunciado na hora da chamada. Como quase toda a esmagadora maioria da turma, ele também só era tratado pelo apelido, inclusive por muitos professores.
Paulo E.T., Tarsio Jabá, Testa, Anãozinho de Jardim, Renato Nariz, Cassandra, eram alguns dos meus outros colegas na época da Escola Estadual Caetano de Campos.
Todos detentores de apelidos que, é claro, sempre tinham uma conotação pejorativa e que se baseavam naquilo que considerávamos os pontos fracos de cada um.
Assim, tratar o outro pelo apelido era uma forma de se defender ou de se afirmar no grupo, enquanto chamar pelo nome era uma forma de negociar uma trégua temporária.
De maneira geral, quase todos “sobrevivemos” àquelas regras de convívio. O problema dessa história é o “quase”...
Com o Carlos, o caso era mais complicado.
Seu excesso de peso e seu jeito tímido fizeram com que ele se tornasse a maior referência de chacota do grupo.
O Rolha de Poço era motivo de deboche diário, alvo das piadinhas e o saco de pancadas (físicas e emocionais) da turma.
Se tinha algum mau cheiro na classe, era dele. Alguma coisa fora de ordem, era ele. Para qualquer coisa que acontecesse de errado, tínhamos ele que, com suas bochechas rosadas que ficavam vermelhas como um pimentão, se encolhia em sua fragilidade e servia aos propósitos do grupo.
Sem nos darmos conta de nossa tirania e sem termos a menor noção do estrago que estávamos fazendo, convivíamos naturalmente com aquilo.
Hoje, fala-se em bullying nas escolas. O Carlos viveu a mesma coisa, só não tinha esse nome ainda.
Passou por isso desde pequeno. Na época da Educação Infantil era mais um daqueles que são chamados de “baleia” quando a “tia” não está olhando.
Quando fui para o encontro com a turma nem imaginei que o Carlos também fosse, afinal suas lembranças não deveriam ser das melhores.
Mas, ele foi e o fato de ter ido me fez pensar bastante nisso.
Pude entender que certamente aquela época em que convivemos na escola não foi apenas um momento difícil em sua vida. Na verdade, desde pequeno, isso tem sido a sua vida – Hoje ele está casado e tem três filhos. Não chegou a concluir uma faculdade e é funcionário em uma empresa onde os colegas carinhosamente o chamam de “Barrica”.
Auto-estima? Sinceramente, não sei como ele lida com isso.
Fiquei pensando como será que ele lida com questões de escolhas, relacionamentos e até mesmo sexo. Não tive coragem de perguntar...
Mas, nesse reencontro, fiquei pensando muito no que eu poderia ter feito de diferente para ajudar o Carlos.
Concluí que não muito, afinal naquela época, acreditava que um posicionamento contrário aos demais seria virar o novo motivo de piada do grupo. E, como qualquer um, o que eu mais queria era ser aceito pela turma.
Porém, consigo perceber o quanto a escola poderia ter sido diferente. Com o Carlos e conosco.
Poderia tê-lo livrado daquele martírio. Quanto a nós, podia ter nos ajudado a compreender lições essenciais sobre como o nosso comportamento cruel refletia nossos medos e nossas carências de autoconfiança.
Ah, teriam sido preciosas lições para que quando fôssemos adultos nos tornássemos mais preparados para enfrentar as nossas incertezas...
Mas isso não aconteceu. Os professores da minha escola não estavam muito preocupados com isso, afinal os seus salários eram baixos e tinham que se organizar para o próximo movimento grevista.
E ali, anos depois, estávamos nós reunidos. Os jovens alunos que cresceram, ou envelheceram, e que fazem de tudo isso uma lembrança.
Insisto: Naquele momento, eu não podia fazer muita coisa sobre o bullying que o Carlos sofria. Mas, hoje eu posso!
Tive uma conversa com meu filho sobre isso. Contei para ele, em uma linguagem diferente é claro, a história de um menino que sofria na escola.
A diferença é que nessa história fictícia, havia um menino que sempre impedia que os abusos ocorressem. Esse pequeno herói, uma representação de tudo que eu gostaria de ter sido.
Acho que ele entendeu bem a mensagem.
Tanto que fiquei bem motivado a transformar essa história em um livro infantil, onde esse herói transmitirá uma mensagem de coragem, compreensão e valores para as outras crianças e ajudará os educadores a perceberem que a maioria dos “bullies”, no fundo, não querem ser tiranos, apenas só não conhecem outro caminho para se sentirem confiantes.
Pretendo, é claro, dedicá-lo ao Carlos, o único herói em tudo isso.

Acabar de vez com o bullying nas escolas e nos locais de trabalho, eis aí um bom desafio.

Um carinhoso abraço.

Flávio Lettieri
flavio@sommaonline.com.br


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